zé dirceu - um espaço para discussão no brasil
cadastre-se e receba nosso boletm no seu email
comunidade do zé dirceu

POLÍTICA DO BLOG
Obrigado pelo seu comentário. Este blog é mediado. Não serão publicados comentários com palavras de baixo calão, denúncias levianas e troca de ofensas entre leitores.

blog do zé
Poltica Internacional
Por que Uribe toca tambores de guerra?
Publicado em 23-Nov-2009
Breno Altman Image

Image Breno Altman

Um expectro ronda a América Latina, e não é o do comunismo, para tristeza do velho Marx. O governo colombiano, principal trincheira contra o avanço das forças progressistas na região, marcante nos últimos dez anos, acelera desmedida escalada militar. O cardápio de suas políticas, já bastante apimentado pelos acordos com os Estados Unidos e a forte subida dos gastos em defesa, aparentemente também inclui ações de provocação em territórios vizinhos.

No ano passado, o presidente Álvaro Uribe determinou a invasão das fronteiras equatorianas, em operação de aniquilamento contra Raul Reyes, dirigente das FARC. A repulsa gerada por sua atitude possivelmente o fez repensar esse tipo de incursão e intensificar manobras encobertas. Há fortes sinais de que ativistas dos grupos paramilitares, desmobilizados na Colômbia, estejam se infiltrando em cidades venezuelanas e montando uma rede de terror. Seus crimes são imputados à guerrilha e servem de pretexto para acusar o governo de Caracas como cúmplice da insurgência.

Decisões e declarações recentes do presidente Hugo Chávez, fechando fronteiras e ordenando o incremento na mobilização de suas forças armadas, correspondem a uma reação legítima diante de um vizinho inóspito, cada vez mais armado e envolvido em indisfarçáveis hostilidades contra os países que consistuem o arco do boliviarianismo.

A pretexto de combater o narcotráfico e a insurgência, a administração Uribe logrou incluir seu país entre as dez nações com maior percentual do orçamento dedicado a despesas militares. Segundo a Controladoria Geral do país, mais de 20% dos recursos estatais terão sido direcionados, em 2009, às atividades bélicas, mais que as verbas para saúde ou educação. Correspondem a 4,9% do PIB colombiano, contra uma média de 1,6% em todo o continente. Há dez anos essa participação chegava a 2,8%.

A corrida armamentista impulsionada por Uribe inclui um formidável aliado ao norte. Os Estados Unidos não poupam recursos, financeiros e tecnológicos, para dotar Bogotá de uma poderosa máquina de guerra. Essa aliança, antes configurada pelas linhas de crédito, fornecimento e treinamento previstas no Plano Colômbia, agora entra em nova etapa, com o acordo assinado no último dia de outubro, que institucionaliza bases militares norte-americanas no país.

Há uma evidente contradição entre o objetivo anunciado por Uribe e seus esforços bélicos. Além da eficácia discutível para a guerra irregular, como é o combate travado contra as FARC, tamanha maquinaria militar revela-se desproporcional às atividades de segurança interna. As provocações na fronteira venezuelana evidenciam outros alvos estratégicos.

A Colômbia, de fato, está se transformando em enclave militar norte-americano na região. Não resta dúvidas de que esse processo interessa politicamente a Uribe, pois consolida sua liderança sobre o bloco conservador em seu país e o fortalece contra a ascensão das correntes progressistas locais. Mas, sobretudo, revela contornos da estratégia de seus sócios estrangeiros.

Os Estados Unidos atravessam sensível decadência de sua hegemonia sobre o continente. Foram surpreendidos pela onda de mudanças políticas que afastaram de importantes governos latino-americanos as oligarquias com as quais estavam acostumados a negociar e comandar. Após a devolução do Canal do Panamá a seu legítimo país proprietário, perderam seu principal ponto de apoio militar ao sul do Rio Grande. A Casa Branca viu-se em um imbróglio geopolítico.

Nesse contexto, a situação colombiana, marcada pela longa guerra civil e o peso econômico do tráfico de drogas, ofereceu a possibilidade estratégica e o discurso para mimetizar, como saída à desidratação sofrida na América Latina, o desenho operacional do Oriente Médio, onde Israel é vitaminado para funcionar como ponta-de-lança dos interesses norte-americanos.

Não se trata apenas de pressionar governos que colidam com as demandas de Washington ou de conter a emergência de um bloco subcontinental autônomo, mas igualmente de estabelecer uma força militar regional que possa participar com qualidade na disputa pelas riquezas naturais do subcontinente, especialmente o petróleo e a água. O patrocínio da escalada militar na Colômbia e a reativação da Quarta Frota obedecem a essa lógica.

À essa política prestam-se os tambores de guerra tocados pelo presidente Uribe.

Breno Altman é jornalista e diretor de redação do site Opera Mundi

arquivo